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Contribuição do PPGCB para o entendimento da Pandemia pelo COVID-19 | CCEN UFPB

por Ana Magyar publicado: 25/03/2020 17h38, última modificação: 25/03/2020 17h39

Para que serve uma pós-graduação que forma mestres e doutores em Ciências Biológicas em uma universidade pública brasileira? Poderíamos considerar em meio à crise econômica e à pandemia global que o trabalho dos cientistas desta área não é prioritário, essencial ou estratégico. No entanto, o estudo da biodiversidade é fundamental para o crescimento de nossa economia em setores importantes como agricultura, pecuária e turismo, bem como para a compreensão e contenção de zoonoses como a provocada pelo novo coronavírus.

Zoonoses são doenças infecciosas capazes de ser naturalmente transmitidas entre animais e seres humanos. No caso da pandemia atual, evidências moleculares apontam que o vírus saltou de um vertebrado silvestre, possivelmente um morcego, para o Homo sapiens (Lu et al. 2020). A transmissão se deu possivelmente em um mercado na China que comercializa animais caçados indiscriminadamente para consumo humano (Andersen et al. 2020), fato que também se observa ilegalmente no Brasil e em muitos outros países com imensa variedade de representantes da fauna silvestre.

No Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (PPGCB) da Universidade Federal da Paraíba, há um grupo de pesquisa trabalhando há vários anos em diversos aspectos das zoonoses. Em termos de produção científica, temos um doutorado defendido com zoonoses de morcegos em áreas urbanas (Nunes et al. 2017), um mestrado defendido sobre transmissão de zoonoses entre ambientes silvestres e urbanos (Zeppelini et al. 2016) e um doutorado em andamento sobre aspectos ecológicos para a vigilância epidemiológica da raiva em morcegos de áreas urbanas, realizado em parceria com os centros de vigilância ambiental e zoonoses das cidades de Recife, João Pessoa e Natal.

Os pesquisadores já descreveram 18 novos hospedeiros para parasitos (Rocha et al. 2013a,b, Herrera et al. 2011, Rodrigues et al. 2019, Sousa et al. 2017a,b, Vieira et al. 2019, Souza et al. 2019) e uma nova espécie de parasito (Luiz et al. 2015). Todos os anos, na disciplina obrigatória de Zoologia de Campo, ensinamos o manejo de mamíferos com nível de biossegurança 3 (zoonoses patogênicas transmitidas por aerosol). Em 2019, a Dra. Fabiana Rocha ministrou uma disciplina sobre Disease Risk Assessment, uma metodologia para análise de doenças em animais silvestres. Além de fornecer ferramentas para análise de risco, discutiu o uso de abordagens transversais no combate a epidemias.

Em termos práticos, os resultados das pesquisas e disciplinas do PPGCB indicam que o comércio ilegal de animais silvestres e o consumo de proteína animal sem procedência carregam o risco iminente de originar novas epidemias, seja em Wuhan na China ou em qualquer local do mundo onde a prática ocorra. Não significa que matar animais silvestres resolva o problema, pelo contrário! É importante preservar seus habitats naturais e usufruir dos incontáveis serviços que eles nos prestam, como o controle de pragas em nossas lavouras, a polinização que origina nossos alimentos e o fornecimento de água para nossas casas, indústrias e estabelecimentos comerciais.

Embora o PPGCB seja uma das mais antigas e melhores escolas de zoologia do Brasil, o governo federal investiu em 2019 cerca de R$ 50 por mês por aluno. Como é possível continuar formando profissionais de excelência com esse nível de investimento? Como é possível continuar gerando as bases técnico-científicas para enfrentar as novas epidemias que assolarão as vidas de nossos filhos e netos? Em 3 de março de 2020, a CAPES determinou a redução de 10% do número de cotas de mestrado e doutorado de nossos pesquisadores, entendidas dentro do sistema como bolsas para estudantes, mas que na realidade são o salário do pesquisador brasileiro. Além de defasada (R$ 1500 para mestrado e R$ 2200 para doutorado), a bolsa não garante nenhum direito trabalhista.

Duas semanas depois, outro corte foi anunciado (Portaria 34/2020 CAPES), dessa vez ainda mais duro; perdemos 8 bolsas de mestrado e 12 de doutorado, o que corresponde a 35% da nossa força de trabalho. Paradoxalmente, a CAPES nos avaliará com base na produção dos nossos alunos, que agora não poderão se dedicar exclusivamente a suas teses e dissertações. A situação relatada aqui também é encontrada em centenas de outros programas de pós-graduação espalhados pelo Brasil. Procure um deles, converse com o coordenador, se informe. É importante que a sociedade brasileira saia em defesa de seus pesquisadores e da pós-graduação desenvolvida no país.

João Pessoa, 23 de março de 2020.

Dr. Bráulio Almeida Santos (Coordenador PPGCB)

Dr. Pedro Cordeiro Estrela (Docente do PPGCB)

Dr. Fabiana Lopes Rocha (Docente do PPGCB)

Literatura citada

Andersen, K. G., Rambaut, A., Lipkin, W. I., Holmes, E. C., & Garry, R. F. (2020). The proximal origin of SARS-CoV-2. Nature Medicine, 1-3.

Herrera, H.M., Rocha, F.L., Lisboa, C. V, Rademaker, V., Mourão, G.M. & Jansen, a M. (2011). Food web connections and the transmission cycles of Trypanosoma cruzi and Trypanosoma evansi (Kinetoplastida, Trypanosomatidae) in the Pantanal Region, Brazil. Trans. R. Soc. Trop. Med. Hyg., 105, 380–7.

Lu, R., Zhao, X., Li, J., Niu, P., Yang, B., Wu, H., et al. (2020). Genomic characterisation and epidemiology of 2019 novel coronavirus: implications for virus origins and receptor binding. The Lancet, 395(10224), 565-574.

Luiz, J.S., Simões, R.O., Torres, E.L., Barbosa, H.S., Santos, J.N., Giese, E.G., et al. (2015). A new species of Physaloptera (Nematoda: Physalopteridae) from Cerradomys subflavus (Rodentia: Sigmodontinae) in the Cerrado biome, Brazil. Neotrop. Helminthol., 9, 301–312.

Nunes, H., Rocha, F. L., & Cordeiro-Estrela, P. (2017). Bats in urban areas of Brazil: roosts, food resources and parasites in disturbed environments. Urban ecosystems, 20(4), 953-969.

Rocha, F.L., Roque, A.L.R., Arrais, R.C., Santos, J.P., Lima, V.D.S., Xavier, S.C.D.C., et al. (2013a). Trypanosoma cruzi TcI and TcII transmission among wild carnivores, small mammals and dogs in a conservation unit and surrounding areas, Brazil. Parasitology, 140, 160–70.

Rocha, F.L., Roque, A.L.R., de Lima, J.S., Cheida, C.C., Lemos, F.G., de Azevedo, F.C., et al. (2013b). Trypanosoma cruzi infection in neotropical wild carnivores (Mammalia: Carnivora): at the top of the T. cruzi Transmission Chain. PLoS One, 8, e67463.

Rodrigues, M.S., Lima, L., Xavier, S.C.D.C., Herrera, H.M., Rocha, F.L., Roque, A.L.R., et al. (2019). Uncovering Trypanosoma spp. diversity of wild mammals by the use of DNA from blood clots. Int. J. Parasitol. Parasites Wildl., 8, 171–181.

Sousa, K.C.M., Fernandes, M.P., Herrera, H.M., Benevenute, J.L., Santos, F.M., Rocha, F.L., et al. (2017a). Molecular detection of Hepatozoon spp. in domestic dogs and wild mammals in southern Pantanal, Brazil with implications in the transmission route. Vet. Parasitol., 237, 37–46.

Sousa, K.C.M., Herrera, H.M., Secato, C.T., Oliveira, A. do V., Santos, F.M., Rocha, F.L., et al. (2017b). Occurrence and molecular characterization of hemoplasmas in domestic dogs and wild mammals in a Brazilian wetland. Acta Trop., 171, 172–181.

Souza, V.K., Dall’Agnol, B., Souza, U.A., Webster, A., Peters, F.B., Favarini, M.O., et al. (2019). Detection of Rangelia vitalii (Piroplasmida: Babesiidae) in asymptomatic free-ranging wild canids from the Pampa biome, Brazil. Parasitol. Res., 118, 1337–1342.

Vieira, Y.R., Portilho, M.M., Oliveira, F.F., Guterres, A., dos Santos, D.R.L., Villar, L.M., et al. (2019). Evaluation of HBV-Like Circulation in Wild and Farm Animals from Brazil and Uruguay. Int. J. Environ. Res. Public Health, 16, 2679.

Zeppelini, C. G., de Almeida, A. M. P., & Cordeiro-Estrela, P. (2016). Zoonoses as ecological entities: a case review of plague. PLoS neglected tropical diseases, 10(10): e0004949.

Mais informações no site do PPGCB-Zoologia

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